Quando se pergunta a um italiano, que foi jovem nas décadas de 60,70 ou 80, qual foi o “cantautore” (compositor e cantor) que lhe tocou mais
fundo a alma e lhe marcou a vida, é muito provável que a resposta seja Fabrizio De André.
Conversando com uma italiana, nascida em Anzio, uma pequena cidade portuária próxima a Roma, ela disse-me que quando era adolescente morando em Roma para continuar os estudos, nos momentos solitários e com a saudade de Anzio lhe apertando o peito, foram as canções de Fabrizio De André contando estórias dos marginalizados, dos rebeldes, dos vencidos, da liberdade e da anarquia, das mulheres e do amor, que lhe preencheram e lhe salvaram a vida.
Fabrizio De André nasceu em Genôva, Itália no dia 18 de fevereiro de 1940. Após frequentar as faculdades de Letras e de Medicina, sem concluir os cursos, frequentou a de Direito e faltando apenas 6 disciplinas para conclui-la, abandona o curso para seguir carreira musical. Inicia assim a conviver com artistas, como Gino Paoli, Luigi Tenco e Paolo Villaggio e a cantar e tocar com os amigos nos bares de Genôva. São anos de vida desregrada, regada a muito álcool.
Fabrizio casa-se e nasce o seu filho Cristiano. Decide assim, pressionado pela situação econômica, abandonar a carreira musical e formar-se em Direito. Mas, inesperadamente, o sucesso chega quando em 1968, Mina interpreta na TV a sua “Canzone di Marinella”. Desde então a sua carreira artística vai de vento em popa e ele lança três de seus álbuns mais famosos: “La Buona novella” – 1970 , inspirada nos Evangelhos Apócrifos “Non al denaro, non all’amore, nè al cielo”- 1971, e “Storia di un impiegato”- 1973.
Já divorciado, passa a viver em uma fazenda na Sardenha, onde conhece e se casa com a cantora Dori Ghezzi e começa a exercitar as suas outras paixões: a culinária e a agricultura.
Continua a sua carreira artística lançando inúmeros álbuns sempre com a temática poética focada no ser humano com seus conflitos e sofrimentos, suas dores e seus amores. Contando também os fatos cotidianos, muitas vezes por ele transformados para poupá-los da dor e da injustiça, como na “Canzone di Marinella”, assim como a sociedade italiana do “boom econômico”. Tudo com refinamento musical e linguístico.
Fabrizio De André, se dizia ser um libertário e uma pessoa extremamente tolerante e que encontava a convivência social autêntica entre os marginalizados e os humilhados da nossa sociedade.
Esse artista de grande sensibilidade que afirmava ter duas idéias fixas: a ânsia de justiça e a convicção presunçosa de poder transformar o mundo, apesar da última, segundo ele, ter caído com o tempo, morreu na noite de 11 de janeiro de 1999, um mês antes de completar 59 anos, vítima de um câncer.
Reconhecido e amado por pessoas de várias gerações, cujo nome denomina ruas, praças, escolas, bibliotecas e prêmios em várias partes da Itália, Fabrizio De André deixou uma obra poética e musical rica, universal e atemporal, tema inclusive de várias teses universitárias na Itália.

