Morando em uma rua que dá acesso aos dois circuitos do carnaval de Salvador, que no Guiness BooK é citado como a maior festa de rua do planeta, mas sem nenhuma vontade de ir à festa, almoçávamos e falávamos das nossas lembranças de carnavais passados. Stefano, nascido em Roma, não lembrava-se de festas na “cidade eterna”, mas dos doces típicos de carnaval da sua infância: as “castagnole” e as “frappe”. Uma tradição gastronômica italiana, predominando sobretudo, os doces fritos.
Já Daniela, também romana, lembrava-se dos carnavais da sua infância e das fantasias que usava para passear pelas ruas de Roma ou para ir a um dos bailes que tradicionalmente se organizavam nas casas.
As minhas lembranças também estão relacionadas às fantasias. Recordo-me de certo ano em que eu tinha duas fantasias para usar nos três dias de festa, uma de baiana e a outra de romana. As duas eram belas, mas o tecido da fantasia de romana me incomodava, coçava a minha pele. Assim, eu queria me fantasiar apenas de baiana, aborrecendo muito minha mãe, que amava as fantasias elegantes, como aquela de uma velha fotografia onde se podia vê-la, desfilando em cima de um carro alegórico do Clube Fantoches, em um longínquo e saudoso carnaval de Salvador.
Essa festa carnavalesca com fantasias e carros alegóricos chegou ao Brasil por volta do século XVII, influência européia, especialmente italiana e francesa, onde as festas de carnaval ocorriam com desfiles, fantasias e máscaras, muitas das quais representando personagens da “Commedia dell’Arte”, como pierrôs, colombinas e polichinelos.
As máscaras e as fantasias são tradição no carnaval de Veneza, inspiradas nos elegantes trajes dos séculos XVII e XVIII ou nos personagens da “Commedia dell’Arte”.
vendem, desde as mais simples, fabricadas em “cartapesta”, uma mistura de gesso e pasta de papel, até as mais sofisticadas, banhadas em metal, ornadas com ouro ou prata. A mais famosa delas é a “bauta”, máscara branca em forma de bico completada por um chapéu de três pontas e uma capa preta de seda. O uso das máscaras chegou até a ser proibido, por causa de inúmeros abusos praticados sob o seu anonimato.
O carnaval de Veneza dura 10 dias. No final do século XI, segundo escritos da época, durava até 6 meses e chegou quase a desaparecer no século XIX. Mas, desde 1980 vem sendo revitalizado, recuperando a participação popular e todos os anos atrae milhares de visitantes que vêm participar das inúmeras manifestações organizadas: bailes, espetáculos teatrais, exposições de arte, concurso de fantasias, eventos gastronômicos, oficinas culturais, ou espontâneas como os espetáculos improvisados nas ruas por artistas populares, ou simplesmente observar na Praça São Marcos as belas e ricas fantasias que chegam para os luxuosos bailes, quem sabe com um personagem público famoso por detrás delas. Além de tudo isso, naturalmente, passear pelas ruas, praças e pontes da inesquecível “La Serenissima”.
O tema do carnaval de Veneza 2011 foi “Ottocento – da Senso a Sissi, la città delle donne”, em homenagem aos festejos dos 150 anos da unificação italiana e da coincidência da terça-feira de carnaval ser em 8 de março, Dia da Mulher. O título se refere também à obra-prima cinematográfica de 1954 de Luchino Visconti (Senso) e à Princesa Sissi, símbolo da elegância do século XIX.
O encerramento do carnaval de Veneza não poderia ser mais romântico e sugestivo, diferente de qualquer outro: um cortejo pelo Canal Grande só com gôndolas e barcos a remo e com os edificios a beira do canal iluminados à luz de velas e a chegada à Praça São Marcos apinhada de gente e com lanternas luminosas voadoras. Uma imagem mágica e misteriosa, que evocava uma Veneza do século XIX e de antigos carnavais, para saudar o ano, que como se diz no Brasil, só começa depois do carnaval.



